sexta-feira, 30 de março de 2012

Soltaram meu banquinho

31 de março de 2012 - minha formatura
Eu devia ter uns 6 ou 7 anos de idade, mais ou menos, quando decidi aprender a andar de bicicleta. Sozinha.
Cresci em uma família onde a bicicleta, além de ser um meio de transporte, trazia o sustento da casa. Meu avô abriu uma das primeiras oficinas e loja de bicicleta da minha cidade natal. Cresci apreciando aquelas rodas, correntes, acentos e guidões.
Lembro que fiquei uma tarde inteira descendo um morrinho, na casa das minhas primas, com uma bicicletinha, e elas a me caçoar pela janela. Até que em algum momento, mágico por sinal, consegui... Quando vi estava a pedalar!
O maior desafio nesse assunto foi aos 12 anos. A meta da vez era andar em uma bicicleta maior, com marcha. Aí recorri ao meu pai, o tombo poderia ser doloroso.
Lembro-me da sensação ao sentar naquele banco mais alto, os pés não alcançavam o chão. A insegurança era grande. Meu pai do lado, segurando o banco e um guidão. Aquele segundo inesperado e... quando senti que ele ia me soltar, as palavras que saíam da boca transpareciam o medo - “não me solta, não me solta”. Quando parei de choramingar estava a uns 200 metros dele.
Ah que felicidade! O poder do momento, a alegria de estar andando naquela bicicleta, daquele tamanho desafiador. E esse sentimento se deveu a meu pai, que confiou em mim e soube me soltar no momento oportuno, me proporcionando uma independência tranquila.
Foi essa a sensação quando decidi sair de casa para cursar a faculdade. A de querer ir e querer ficar. O medo de encarar o mundo com meus próprios olhos.
O começo dessa jornada foi há muitos anos atrás. Acredito que desde o jardim de infância, onde me encantava com qualquer forma geométrica dos brinquedos, admirava os desenhos da professorinha e como desejava, um dia, saber fazer o que ela fazia com um giz de cera (foram os projetos de paisagismo da faculdade que resgataram essa lembrança). Ou então os primeiros deveres de casa, os quais meus pais sempre acompanhavam. Tinha um caderninho para a escola e um caderninho para a minha mãe, cheio de contas de matemática. As aulas de desenho, de pintura e o gosto pela leitura... Devo isso à mãe também. Esses detalhes parecem bobos, mas que no momento da escolha da profissão se fizeram presentes. 
Nunca me forcei a escolher logo o que fazer quando crescer. A arquitetura veio por intuição. Algo muito forte dentro de mim dizia que era isso que me completaria e que amaria fazer todos os dias da minha vida. Era certo, para mim, que se não fosse isso não seria outra coisa.
Ao entrar na faculdade, minha vida mudou, e mudou e mudou, principalmente por ser em outra cidade. A saída de casa mexeu comigo. Mas assumi a escolha e encarei como sendo normal, afinal todo mundo cresce e constrói seu caminho. E que caminho...
Cálculo, topografia, desenho, teorias, história, estética, projetos, urbanismo, paisagismo, gerenciamento, obra, detalhamento, filosofia, comportamento humano, empreendedorismo e tantas outras disciplinas passaram e os ensinamentos ficaram.
Foi trabalhoso. Muitas noites sem dormir. Quem vê um projeto pronto, mal sabe as etapas e processos a que passa um criador. Vai além do que se vê. É uma entrega de corpo e alma.
Foi uma escolha feliz.
Soltaram meu banquinho e pedalei até aqui!