31 de março de 2012 - minha formatura
Eu devia ter uns 6 ou 7 anos de idade, mais ou menos, quando
decidi aprender a andar de bicicleta. Sozinha.
Cresci em uma família onde a bicicleta, além de ser um meio
de transporte, trazia o sustento da casa. Meu avô abriu uma das primeiras
oficinas e loja de bicicleta da minha cidade natal. Cresci apreciando
aquelas rodas, correntes, acentos e guidões.
Lembro que fiquei uma tarde inteira descendo um morrinho, na
casa das minhas primas, com uma bicicletinha, e elas a me caçoar pela janela.
Até que em algum momento, mágico por sinal, consegui... Quando vi estava a
pedalar!
O maior desafio nesse assunto foi aos 12 anos. A meta da vez
era andar em uma bicicleta maior, com marcha. Aí recorri ao meu pai, o tombo
poderia ser doloroso.
Lembro-me da sensação ao sentar naquele banco mais alto, os
pés não alcançavam o chão. A insegurança era grande. Meu pai do lado, segurando
o banco e um guidão. Aquele segundo inesperado e... quando senti que ele ia me
soltar, as palavras que saíam da boca transpareciam o medo - “não me solta, não
me solta”. Quando parei de choramingar estava a uns 200 metros dele.
Ah que felicidade! O poder do momento, a alegria de estar
andando naquela bicicleta, daquele tamanho desafiador. E esse sentimento se deveu a meu pai, que
confiou em mim e soube me soltar no momento oportuno, me proporcionando uma
independência tranquila.
Foi essa a sensação quando decidi sair de casa para cursar a
faculdade. A de querer ir e querer ficar. O medo de encarar o mundo com meus
próprios olhos.
O começo dessa jornada foi há muitos anos atrás. Acredito
que desde o jardim de infância, onde me encantava com qualquer forma geométrica
dos brinquedos, admirava os desenhos da professorinha e como desejava, um dia,
saber fazer o que ela fazia com um giz de cera (foram os projetos de paisagismo
da faculdade que resgataram essa lembrança). Ou então os primeiros deveres de casa,
os quais meus pais sempre acompanhavam. Tinha um caderninho para a escola e um
caderninho para a minha mãe, cheio de contas de matemática. As aulas de
desenho, de pintura e o gosto pela leitura... Devo isso à mãe também. Esses
detalhes parecem bobos, mas que no momento da escolha da profissão se fizeram
presentes.
Nunca me forcei a escolher logo o que fazer quando crescer.
A arquitetura veio por intuição. Algo muito forte dentro de mim dizia que era
isso que me completaria e que amaria fazer todos os dias da minha vida. Era
certo, para mim, que se não fosse isso não seria outra coisa.
Ao entrar na faculdade, minha vida mudou, e mudou e mudou, principalmente por ser em outra cidade. A
saída de casa mexeu comigo. Mas assumi a escolha e encarei como sendo normal,
afinal todo mundo cresce e constrói seu caminho. E que caminho...
Cálculo, topografia, desenho, teorias, história, estética,
projetos, urbanismo, paisagismo, gerenciamento, obra, detalhamento, filosofia,
comportamento humano, empreendedorismo e tantas outras disciplinas passaram e
os ensinamentos ficaram.
Foi trabalhoso. Muitas noites sem dormir. Quem vê um projeto
pronto, mal sabe as etapas e processos a que passa um criador. Vai além do que
se vê. É uma entrega de corpo e alma.
Foi uma escolha feliz.
Soltaram meu banquinho e pedalei até aqui!
Fiquei emocionada ao ler o início do seu post, Jake, pois só nossos pais confiam tanto na gente, mais do que nós mesmos a ponto de nos "soltar" na hora certa. Assim é com a bicicleta (comigo foi igual!), assim é com a vida.
ResponderExcluirSentimos saudades? Claro! Mas também nos realizamos a cada dia.
Que você seja tão feliz na arquitetura como eu sou na fotografia. E você sabe como comecei, você esteve presente.
Beijos!